Presidente argentino voltou a questionar decisões que anularam condenações de Lula na Lava Jato e afirmou que o brasileiro “não é inocente”
O presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a fazer duras críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e reacendeu a tensão diplomática entre os dois países. Em novas declarações, o argentino chamou Lula de “ladrão” e “corrupto” e afirmou que o presidente brasileiro “não é inocente” em relação às acusações que foram alvo da Operação Lava Jato.
Milei também voltou a questionar as decisões judiciais que anularam as condenações de Lula relacionadas à Lava Jato. Segundo o presidente argentino, Lula teria sido colocado em liberdade em razão de uma suposta falha processual.
As declarações representam mais um capítulo de uma sequência de ataques públicos entre o presidente argentino e integrantes do governo brasileiro.
Durante as declarações, Milei sustentou que as condenações de Lula foram anuladas por questões processuais e voltou a defender a interpretação de que isso não significaria que o presidente brasileiro tenha sido declarado inocente.
A questão, porém, exige uma distinção importante.
Em 2021, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, anulou as condenações de Lula relacionadas aos casos do triplex do Guarujá, do sítio de Atibaia e de outras ações da Lava Jato porque considerou que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar aqueles processos.
A decisão não declarou Lula inocente no mérito das acusações. Posteriormente, o plenário do STF confirmou a decisão relacionada à competência da Justiça Federal de Curitiba.
Portanto, a afirmação de que Lula foi “inocentado” pela decisão não corresponde exatamente ao fundamento jurídico utilizado pelo Supremo. Ao mesmo tempo, as antigas condenações deixaram de produzir efeitos jurídicos após as decisões que as anularam.
Os novos ataques acontecem poucos dias depois de outra escalada nas relações entre Brasil e Argentina.
Em julho, Milei já havia chamado Lula de “ladrão” e “ex-presidiário”, além de fazer ataques ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. As declarações ocorreram durante a convenção do Partido Liberal (PL), em São Paulo, que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
Na ocasião, o governo brasileiro reagiu diplomaticamente. O Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para transmitir a “repulsa” do Brasil às declarações de Milei e cobrar explicações.
O embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, também retornou a Brasília para consultas, em um gesto que demonstrou o nível de tensão entre os dois governos.
Apesar da sequência de ataques, Lula adotou inicialmente um tom mais contido.
Questionado por jornalistas sobre as declarações de Milei, o presidente brasileiro respondeu ironicamente: “Quem é esse cara?”. A declaração ocorreu enquanto Lula chegava ao Palácio do Itamaraty para uma recepção ao presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung.
A estratégia brasileira contrasta com a postura adotada pelo presidente argentino, que vem utilizando discursos públicos e redes sociais para fazer críticas diretas ao governo brasileiro.
A relação entre Lula e Milei é marcada por diferenças políticas e ideológicas desde a campanha presidencial argentina de 2023.
Durante aquela eleição, Lula apoiou publicamente Sergio Massa, adversário de Milei. O argentino, por sua vez, demonstrou proximidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros integrantes da direita brasileira.
Depois de assumir a Presidência da Argentina, Milei chegou a enviar uma carta a Lula e sinalizou interesse em manter relações institucionais entre os dois países. A relação pessoal, porém, permaneceu marcada por divergências.
Nos últimos meses, os ataques públicos voltaram a se intensificar.
Apesar da crise entre os presidentes, Brasil e Argentina mantêm uma relação econômica e comercial de grande importância.
Os dois países são membros do Mercosul e possuem forte integração em setores como indústria, agricultura, energia, comércio e serviços.
Dados citados pelo El País mostram que o comércio bilateral atingiu, em 2025, o maior nível em 13 anos, demonstrando que a relação econômica permanece relevante mesmo diante dos conflitos políticos entre os governos.
A interdependência econômica faz com que uma ruptura diplomática mais profunda seja considerada prejudicial para os dois países.
Além de Lula, Milei também vem fazendo críticas ao ministro Alexandre de Moraes.
Durante a convenção do PL em São Paulo, o argentino utilizou uma expressão ofensiva contra o ministro do STF. As declarações foram recebidas pelo governo brasileiro como mais um episódio de interferência e ataque à política interna do país.
A manifestação ocorreu em um evento de caráter político-partidário brasileiro, no qual Milei também demonstrou apoio ao grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A repetição dos ataques coloca pressão sobre a diplomacia dos dois países.
De um lado, o governo argentino sustenta que Milei tem liberdade para expressar suas opiniões e críticas políticas. Do outro, autoridades brasileiras consideram que ataques pessoais contra o presidente da República e integrantes das instituições brasileiras ultrapassam os limites esperados na relação entre dois países vizinhos.
Especialistas avaliam que, apesar da deterioração da relação pessoal entre Lula e Milei, os interesses econômicos e estratégicos de Brasil e Argentina continuam funcionando como um importante freio para uma ruptura mais grave.
Enquanto isso, a troca de declarações aumenta a tensão política e transforma a relação entre os dois principais países do Mercosul em um dos principais focos de atenção da diplomacia sul-americana.
FONTE: informações de veículos nacionais e internacionais, incluindo Estadão Conteúdo, RFI, El País e reportagens publicadas nesta segunda-feira (3).
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