O segredo para entender a violência não está na luta de classes. O segredo está em entender o que motiva o homem a arriscar a vida.
Acompanhando as notícias sobre a operação policial na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, resolvi correr o risco de esperar 72 horas e, assim, não me juntar ao coro das pessoas que se comunicam por slogans publicitários. Afinal, pretendo usar este espaço para dar aos meus leitores algo que vá além do “bandido bom é bandido morto” ou “não foi operação, foi chacina”.
Aí me deparei com a foto acima. É uma foto simples que mostra um jovem munido de um fuzil e sobre o telhado de uma habitação que reconhecemos como pobre e que pode muito bem ser a favela do Jacarezinho. Mas isso não importa. Às costas ele traz uma mochila, usa calça camuflada e traz no pescoço o onipresente cordão de ouro. O que tampouco importa.
O que importa é o que a imagem não revela. O que pensa esse jovem e quais foram os elementos que o levaram a chegar à brilhante conclusão de que traficar drogas e se envolver numa guerra com a polícia valia a pena? A esquerda acredita que foi o “sonho de uma vida melhor”, com comida farta e perspectiva de futuro para si e para os seus. Já eu acredito que a decisão foi baseada em desejos muitíssimo mais mundanos.
É aí que reside a grande cisma moral entre a esquerda e a direita (para usarmos uma divisão imprecisa, mas clássica) neste país: a primeira tem ascendência naturalista e acredita que o homem tem o caráter moldado pelo ambiente que o cerca. Logo, se transformarmos o ambiente, isto é, se levarmos o Estado para dentro das favelas, provendo saúde, educação, lazer e cultura, moldaremos também o caráter do homem que as habita.
É uma mentalidade que encontra eco no positivismo que ainda norteia boa parte das práticas do Estado brasileiro. Daí porque existem tantas instituições e leis cujo objetivo não é o de proteger a sociedade de maus elementos cujo caráter débil e tendência à criminalidade têm bases outras, como pretendo mostrar adiante; e sim o de transformar esses maus elementos em homens bons por meio da coação.
Não funciona. Duvido que o jovem da foto tenha levado em conta o peso de uma dessas sentenças de décadas, das quais se cumpre uns poucos anos, ou o cheiro da comida azeda da prisão cheia de baratas e ratos antes de decidir entrar para o tráfico. Não. O que leva o jovem a arriscar a vida não é o sacrifício maquiavélico pelo que ele entende como “bem comum”, isto é, cometer um crime a fim de prover para sua família aquilo que o Estado ou o capitalismo liberal lhe negaram.
Maquiavel subiu o morro
Símbolo à revelia disso é Joel Luiz Costa, advogado que se orgulha de ter pai ex-traficante. Logo depois da operação no Jacarezinho, Costa apareceu num vídeo em que, de terno e gravata, como convém a um doutor, chorava lágrimas sinceras pelos bandidos mortos pela polícia. E, com os olhos marejados, dizia que “isso aqui não é a democracia que está nos livros”, para concluir com “quem Dia das Mães essas pessoas vão ter?”.
Ele foi tema de uma reportagem do UOL. E lendo a história de vida do dr. Costa é que me dei conta de quão corrompidos são os valores dessas pessoas que enxergam virtude no crime, desde que ele seja cometido com a finalidade “nobre” de colocar uma criança na faculdade de Direito.
Paulo Polzonoff Jr para a GAZETA DO POVO.