O governador democrata Gavin Newson, da California, ex-prefeito de San Francisco eleito em 2018, anunciou na 2a feira, 15, que começou a levantar dinheiro para financiar a campanha contra a eleição de recall que pode tomar-lhe o mandato ainda em novembro deste ano. Iniciada por mães de alunos que tiveram de deter sua rotina de trabalho para cuidar de seus filhos em casa em função do fechamento das escolas determinado pelo governador, a campanha teve forte adesão de eleitores proibidos de trabalhar pelas determinações de lockdown por ele baixadas.
“Ele não deu nenhuma escolha a ninguém” disse uma signatária do recall à Associated Press. “Simplesmente nos proibiu de fazer qualquer coisa com um ‘é aceitar ou aceitar’”.
O Brasil ainda discute se deve ou não ter um comprovante impresso do voto. Na democracia americana não apenas esse comprovante existe - quase todos os votos são exclusivamente em papel - como o voto é um contrato assinado de próprio punho por cada eleitor, entre ele e a autoridade organizadora das eleições. E como o sistema eleitoral é o distrital puro, onde cada candidato só pode concorrer pelos votos de um único distrito eleitoral, ou seja, a representar os eleitores residentes num determinado endereço e pedaço do país, a assinatura no voto das eleições majoritárias passa a ser o padrão com o qual deverão ser cotejadas todas as outras manifestações dele dali por diante, como adesões a propostas de recall ou de leis de inciativa popular, aprovação de compras e obras públicas ou pedidos de referendo a leis dos legislativos, entre outras questões que lá o eleitor decide diretamente no voto.
Na Califórnia uma campanha de recall de funcionário do Executivo só vai a voto se seus organizadores conseguirem assinaturas correspondentes a 20% dos votos recebidos para elege-lo, o que no caso de Newson significa no mínimo 1,5 milhão. Os organizadores já conseguiram mais de 2 milhões que agora estão sendo conferidas.
A dúvida favorece sempre o eleitor, nunca o eleito. Somente uma assinatura com “múltiplas, significativas e óbvias discrepâncias” com a de votos anteriores pode ser impugnada. E mesmo assim, dois funcionários têm de concordar “acima de qualquer duvida razoável” para desqualificá-la. E como todo funcionário público também está sujeito a recall não ha duvida sobre para qual lado pende a lealdade do funcionalismo.
Na legislação da Califórnia o eleitor que assina uma petição de recall tem 30 dias para se arrepender. É para uma campanha com esse apelo que Newson está agora arrecadando dinheiro. Não que ele ache que pode evitar o recall. É que quanto mais longe tiver ido a vacinação e estiver a memória dos lockdowns no momento da votação, acredita ele, maior a sua chance de escapar da cassação que, no momento, parece muito provável. É de esticar prazos que se trata, portanto.
Os problemas, como se vê, são idênticos, apesar das abissais diferenças de níveis médios de renda e educação. A diferença está em quem tem o poder de participar das e decidir as discussões políticas. Nas democracias, onde “todo poder emana do povo e em seu nome ou por ele diretamente é exercido”, o povo debate, o povo decide e o governo obedece. Nas “democracias” de mentira que já estão podres mas ainda não caíram, os governantes “debatem” com seus especialistas de estimação e o povo, que assiste a tudo calado e de longe, apenas sofre a decisão que eles baixarem, isso se os 11 monocratas acharem que ela foi boa…
Ouço cada dia mais gente que herdou o luxo da liberdade, inconsciente da gota d’água que é a condição de desfrutá-la no vasto oceano da história da servidão humana neste “vale de lágrimas”, dizer de boca cheia, diante das idas e vindas desta pandemia nos países livres, que prefere o sistema chinês.
“Ali sim, resolvem-se as coisas! Quando ‘o cara’ manda fechar fecha mesmo. Ninguém morre de covid na China”.
Primeiro é preciso saber se é isso mesmo. A avareza com que soltam para o exterior as doses das suas vacinas - menos para a África que é o mais imediato objeto da sua cobiça geopolítica - parece indicar o contrário. Não é atoa que ha anos sem fim víamos imagens dos chineses andando de máscara nas ruas, sem saber o que estava por trás daquela estranha “moda”. Ninguém morre de covid na China? Jamais saberemos ao certo, fato que diz a qualquer sujeito com um pingo de desconfiômetro tudo que é preciso saber sobre a quantidade de porrada que se distribui num país de extensão continental onde se amontoa 1/4 da espécie humana, para garantir que só se saiba, do que se passa lá dentro, aquilo que a ditadura do partido único quiser que seja sabido.
A China criou a covid, isso é absolutamente certo, reduzindo sua gente à condição de comer morcegos e, principalmente, a fazer isso em obsequioso silêncio.
Mas o que move essa gente, pelo mundo afora, a insistir em sair de casa na iminência da catástrofe com a pandemia matando como está?
"Negacionismo"?
O que com certeza não há, posso garantir aos sem imaginação, é qualquer diferença na reação dos donos de botequins brasileiro, americano ou chinês - e mais ainda, na dos empregados quase miseráveis dessa fatia dos remediados que têm de batalhar hoje o prato que sua família vai comer amanhã.
Quando “o cara" lhes diz que vão ter de perder tudo que conseguiram na vida arriscando, dia após dia, o seu sangue, o seu suor e as suas lágrimas, o que se instala é uma competição de colapsos: o da luta da vida de cada um versus o dos governantes, que eles desde sempre e com toda a justiça culpam por mantê-los no limiar da miséria apesar de toda essa luta, que não quer encerrar sua carreira com a colheita dos anos todos de incúria que levaram, ao primeiro desafio sério, à falência de sistemas de saúde e capacidade de produção de vacinas que o povo sempre pagou mil vezes melhores do que são.
Então o remediado e o quase miserável chineses engolem em seco e voltam a comer morcegos porque a alternativa é o tiro na nuca. Já os nossos ainda podem chiar, enquanto Alexandre, O Pequeno, e cia. ltda., que dispensam-se olimpicamente das penas que impõem a quem precisa desempenhar para manter seu emprego e seu salário, não se tiverem tornado tão grandes quanto se enxergam ao se olhar no espelho.
O resumo, brava gente brasileira, é que pandemia desse calibre é, pra todo mundo - governantes e governados - andar sobre o fio da navalha. “Se correr o bicho pega, se parar o bicho come”. Mas isso de democracia talvez seja como todas as outras conquistas humanas: pai rico, filho nobre, neto pobre. Vai embora quando se perde a memória viva da epopeia que foi para conquistar aquilo que, para o herdeiro estroina, não custa nada jogar no lixo.
Fernão Lara Mesquita, para O VESPEIRO.