O Brasil não compareceu à 40ª Conferência Internacional para o Controle de Drogas, realizada em Buenos Aires entre os dias 18 e 20 de agosto. O encontro reuniu cerca de 700 delegados e representantes de mais de 100 países para alinhar estratégias operacionais, inteligência criminal e combate às redes transnacionais do narcotráfico. Infelizmente, para uma nação que figura como a maior economia e a mais extensa fronteira terrestre da América do Sul, a ausência nesse debate cobra um preço alto da própria população, além de constituir um equívoco diplomático e de segurança pública.
O país deveria ter comparecido porque deixou de ser mero corredor e tornou-se um dos principais pontos de consumo e escoamento de entorpecentes destinados à Europa e à África, circulando pelas nossas divisas e portos centenas de toneladas anuais de cocaína e maconha. Alegar melindres políticos ou divergências ideológicas não justifica a omissão, nem impedirá os mais de 40 mil homicídios anuais registrados no Brasil — em sua maioria alimentados pelo tráfico.
Falar em soberania não convence a mais ninguém num país onde cerca de 19% da população — aproximadamente 28,5 milhões de pessoas — vive sob a sombra e o domínio ostensivo de facções criminosas ou milícias, submetida a extorsões e à privação de direitos fundamentais em territórios convertidos em enclaves do crime.
Muito além da tese ideológica de nossa diplomacia, enfrentar o narcotráfico exige inteligência compartilhada, sufocamento das finanças criminosas e fiscalização conjunta das fronteiras. Diante de um mal que devasta famílias e corrói as instituições, a integração e o trabalho unificado com as demais nações não são meras escolhas políticas, mas exigências inadiáveis de sobrevivência e proteção social.
Vicente Lino.