A ADPF 635, dita “das Favelas”, foi proposta em 2019 pelo Partido Socialista Brasileiro e, imposta monocraticamente por Edson Fachin durante a pandemia, a pretexto de conter a letalidade da polícia carioca, até ser adotada por “voto consensual dos 11 ministros do STF” em abril de 2020.
Ela cria regras que tornam virtualmente impossível à polícia subir nos morros dominados pelo tráfico, e proíbe também o uso de helicópteros nessas operações.
Isso transformou as favelas do Rio em presa fácil para o Comando Vermelho que, oferecendo esconderijo para criminosos do país inteiro – e até do exterior – cresceu nacionalmente e praticamente dominou o Rio de Janeiro.
A imposição do cumprimento da ADPF, depois de Fachin, ficou a cargo de Luis Roberto Barroso e, com a aposentadoria dele, foi para nas mãos – adivinhem! – d Alexandre de Moraes, o executor das ordens de execução de Luis Ignácio Lula da Silva, que desde o primeiro minuto da operação de terça-feira, no tom autoritário e violento de sempre, vem exigindo satisfações do governador Cláudio Castro.
O resultado de tudo isso, para alem do que foi relatado pelo secretário na entrevista acima, vai surgir inteiro num relatório que a Polícia Civil do Rio de Janeiro informou que está finalizando.
Trata-se de um documento de inteligência “com centenas de páginas”, sobre o papel estratégico dos complexos da Penha e do Alemão dentro da estrutura da organização criminosa.
De acordo com esse relatório, o fluxo de caixa da facção nessas áreas movimentava cerca de 10 toneladas de drogas por mês. Tanto o Alemão quanto a Penha atuavam como polos de abastecimento distribuindo drogas e armas para outras comunidades controladas pelo grupo criminoso. Estima-se que entre 50 e 70 fuzis sejam negociados mensalmente a partir dessas regiões.
A rede de abastecimento do Comando Vermelho alcançaria pelo menos 24 comunidades do Rio, entre elas o Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, a Rocinha, o Complexo da Maré, o Jacarezinho e o Complexo do Lins.
Outro relatório classificado da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) obtido pela Rede Record, elaborado em janeiro de 2018, descreve a formação de uma rede transnacional de narcotráfico que conecta dissidentes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) que Lula, enquanto presidente, recebia oficialmente no Foro de São Paulo quando elas ainda matavam a granel em sua guerra contra o governo eleito da Colômbia, alem de grupos armados venezuelanos e facções brasileiras — especialmente o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho).
O documento indica que o Brasil passou a ocupar papel central nas rotas do crime sul-americano, com a Amazônia transformada em corredor de drogas e armas que cruzam fronteiras fluviais e terrestres. Entre as dezenas de fuzis apreendidos na operação de terça-feira, informou também o delegado Vinicius Domingos, havia armas identificadas como pertencentes a forças armadas de outros países como Venezuela, Peru e Argentina.
A polícia recolheu fuzis de diferentes plataformas: 11 da família G3 (alemã), 16 de plataforma AK47 (russa) e 13 de fabricação belga (FAL), além de outros fuzis de plataforma americana (AR15).
Parte dessas armas são falsificadas.
“Mais de 90% dos fuzis de plataforma AR, americana, são falsificações. Elas têm poder letal, mas sem o padrão de qualidade dos originais”
Dois dos FAL (Fuzil Automático Leve) apreendidos foram identificados como pertencentes às Forças Armadas da Venezuela; outros dois têm marcas das Forças Armadas Brasileiras, um foi associado à Argentina e um G3 à Força Armada do Peru.
Para o delegado, isso indica que muitas armas não vêm de roubo interno, mas entram por rotas terrestres vindas da fronteira da Amazônia e do Paraguai.
Fernão Lara Mesquita é jornalista. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo.