Os gastos com publicidade das empresas estatais continuam sendo um desafio para a transparência. Os orçamentos da Secretaria de Comunicação Social e dos Ministérios não incluem a totalidade desses dispêndios. Empresas estatais como Petrobras, Caixa e Banco do Brasil, com enormes investimentos em publicidade, divulgam seus dados separadamente.
Ainda assim, em 2023, foram gastos 236 milhões de reais, e em 2024, 342 milhões de reais em publicidade, sendo 56% dessa verba destinados à Rede Globo. Vale salientar que repasses bilionários não são transparentes e, por vezes, ficam fora dos levantamentos, o que dificulta a percepção pública do real volume de dinheiro injetado na mídia.
No entanto, todo esse dinheiro não chamou a atenção da grande imprensa. A dinheirama não fez a mídia se preocupar com a CPMI da Previdência, que investiga fraudes bilionárias, nem a fez querer ouvir falar das graves denúncias do ex-assessor de Alexandre de Moraes, Eduardo Tagliaferro, sobre os métodos ditatoriais do ministro.
A Ameaça à Democracia e o Desafio da Parcialidade
Por isso mesmo, a crise de confiança que assola a mídia não é apenas um problema de negócios, mas uma ameaça à sua própria razão de ser e, em última análise, à democracia. O jornalismo é visto como parcial, influenciado por interesses políticos ou econômicos e, nos piores casos, acusado de má-fé.
A imprensa precisa parar de medir as palavras por medo de desagradar anunciantes, fontes poderosas ou grupos de audiência. Tem a obrigação e tem que ter coragem para expor a verdade dos fatos, mesmo quando essa verdade é desconfortável por expor contradições e responsabilizar quem detém o poder.
Como a acusação de parcialidade é o calcanhar de Aquiles da imprensa, não adianta fingir neutralidade. O público percebe quando o veículo protege o círculo de poder e, consequentemente, se afasta.
O Caminho para a Relevância
Se o jornalismo não se reinventar agora, se não reencontrar sua alma no serviço público e na exposição corajosa da verdade, o mergulho na irrelevância será inevitável. Chegou a hora de provar que ele não é um lado da história, mas sim o espelho crítico que a sociedade precisa para funcionar.
Vicente Lino.